terça-feira, 30 de maio de 2017

3. A Mensagem do Evangelho

Voltando ao texto base, prosseguimos agora para entender qual é, especificamente, a mensagem do Evangelho.
I Coríntios 15:3a Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi...
Paulo fala que já entregou essa mensagem do Evangelho aos cristãos de Corinto e que ele por sua vez a recebeu anteriormente. Sabemos pela Bíblia que ele não foi testemunha ocular do ministério terreno de Cristo, nem mesmo da sua morte na cruz. No entanto, também sabemos por outra carta do apóstolo Paulo, que ele recebeu a mensagem do Evangelho por uma revelação sobrenatural do Senhor Jesus Cristo:
Gálatas 1:11-12 Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens; (12) porque não o recebi de homem algum, nem me foi ensinado; mas o recebi por revelação de Jesus Cristo.
Ainda no versículo 3 de I Coríntios 15, ele começa a explicar a mensagem do Evangelho:
I Coríntios 15:3b,4 ...que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras;
Ou seja, a mensagem do Evangelho envolve o fato de que Jesus Cristo, o Filho de Deus, morreu pelos pecados do seu povo (aparentemente no versículo 3, pelo menos pelo apóstolo Paulo e por aqueles a quem ele está enviando a carta) e, como vemos no verso seguinte, o fato de que depois de três dias, Jesus ressuscitou (voltou a viver). Isso tudo, veremos detalhadamente, inclui não somente os fatos em si, mas o seu significado e implicações para aqueles que são chamados de “povo de Deus”.
São introduzidos aqui os conceitos de “pecado” e o que a teologia chama de “doutrina da expiação1”, quando o texto nos diz: “...Cristo morreu por nossos pecados...” o que aqui se refere ao fato de Jesus ter pago a dívida do pecado do seu povo.
É possível também dizer que outras doutrinas marcam presença de forma implícita, porque são pressupostos necessários para o trecho fazer algum sentido. Em outras palavras, há um contexto aqui de ensino teológico de longa data, no qual a mensagem de Paulo está inserida. Paulo está falando com um público que já conhece a respeito de muitas coisas das Escrituras2, pois foi previamente ensinado. Dentre as outras doutrinas implícitas no trecho poderíamos mencionar: A existência e a natureza de Deus, o que é o pecado, quais as suas consequências etc.
Primeiramente, não poderemos compreender corretamente as doutrinas do pecado e da expiação sem antes buscarmos entender à luz da Bíblia quem é Deus, que é o tema do nosso próximo capítulo.

Resumo do Capítulo 3
  • Paulo menciona que já havia entregado a mensagem do Evangelho aos coríntios. Descobrimos também (em outra carta) que ele recebeu essa mensagem através de uma revelação sobrenatural de Jesus Cristo
(I Co 15:3; Gl 1:11-12).
  • A mensagem do Evangelho consiste em que Cristo morreu para pagar pelos pecados do seu povo (expiação) e ressuscitou, bem como todo o significado e implicações relacionados a esses eventos.
  • A passagem está inserida num contexto de ensino teológico de longa data, onde várias doutrinas são, provavelmente, conhecidas pelos endereçados na carta, tais como as que se relacionam a Deus e ao pecado.

1 Expiação significa “pagar a dívida”, “apaziguar”, “cobrir”.
2 “Escrituras” ou, “Escritura”, é o termo bíblico para os textos sagrados inspirados por Deus  (conferir II Timóteo 3:16). Até o momento da escrita da carta aos Coríntios, consistia de todo o Velho Testamento e de alguns livros/trechos do Novo Testamento, presentes em nossas bíblias atuais.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

2. O que é “Fé”?

A palavra “fé” ou, “crença”, é apresentada nos textos bíblicos em, pelo menos, duas situações que nos interessam por hora para entender o nosso texto base:
1º: Designando uma crença pessoal, subjetiva, ou seja, o ato de assentir (concordar, admitir) a uma determinada informação, confiar. Por exemplo:
Romanos 4:3 Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.
Pode-se notar então que crer ou ter fé em algo ou alguém envolve duas coisas: (1) conhecer ou, entender alguma informação e (2) assentir, aceitar a realidade, ou, a verdade dessa informação, o que resulta em uma segurança interior1, em relação à aceitação dessa mesma realidade, uma certeza (essa segurança é normalmente chamada de “confiança”).
Conta-se2 que certa vez um estudioso, que pretendia traduzir a Bíblia para o idioma de uma tribo indígena brasileira, se deparou com uma grande dificuldade: a língua escolhida para a tradução não tinha uma palavra específica para “fé”. Ele acabou decidindo por traduzir o termo pela mesma palavra que os índios usavam para “rede”, pois aquela tribo específica tinha o costume de amarrar as suas redes nas árvores para dormir, e era necessário que a rede fosse bem firme e o nó bem-feito, caso contrário eles poderiam cair e morrer. Ou seja, assim como eles depositavam a sua confiança na rede para a sua segurança durante o sono, a fé seria a nossa confiança em alguma informação que julgamos verdadeira, ou suficiente, na qual, em certo sentido, nós “descansamos” tranquilamente, pois temos uma segurança interior a respeito de sua veracidade. Mas ainda há um segundo uso da palavra “fé” na Bíblia, que vai um passo além do que já mencionamos:
2º: Significando um conjunto objetivo de fatos e/ou doutrinas, passível de ser crido, como “a fé cristã”, “a fé judaica” etc. Por exemplo, na epístola de Judas:
Judas 1:3 Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.
O apelo da passagem de Judas 1:3 não se refere a batalhar pelo ato subjetivo de crer em qualquer coisa, mas sim “pela fé que foi dada aos santos”, ou seja, o corpo de fatos e doutrinas do cristianismo.
Vemos então que, fé individual (confiança subjetiva), pode ser aplicada sobre artigos de fé objetivos, como por exemplo, as doutrinas de alguma religião, princípios filosóficos, fatos simples do dia a dia e até mesmo teorias científicas.
É preciso ter clara a distinção entre esses dois usos do termo “fé” no texto sagrado. No entanto, na Bíblia percebemos que o primeiro uso do termo (fé subjetiva, confiança pessoal), quando relacionado à salvação (como é o caso do texto base), sempre se refere a uma fé aplicada sobre um corpo específico de fatos e doutrinas que deve ser conhecido, para então ser crido. Em outras palavras, a fé que resulta em salvação envolve: (1.) conhecer a mensagem do Evangelho, e (2.) um assentimento por parte da pessoa a essa mensagem especificamente3. A Fé necessária à salvação no contexto da passagem é uma, tal como veremos mais a frente4, que nos é concedida pelo próprio Deus, para crer, ou confiar, na mensagem do Evangelho (inclusive em suas implicações para as nossas vidas), bem como permanecer crendo nela.
Vale enfatizar que o texto base que estamos examinando é incisivo sobre a importância de uma fé correta a respeito da mensagem e doutrina cristã.
Muitas pessoas hoje apregoam: “não importa no que você crê, contanto que seja sincero”, em contrapartida o apóstolo Paulo condena severamente distorções. Podemos conferir isso na epístola aos Coríntios e em outros escritos também. Exemplo:
Gálatas 1:8 Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema5.
Vemos então que a fé salvadora é a fé na verdade, a verdade relacionada a Jesus Cristo e sua obra de salvação. A fé salvadora não “descansa” em falsidades, ou naquilo que julgamos conveniente.
Resumo do Capítulo 2
  • A palavra “Fé” na Bíblia pode significar:
    • (1) Conhecer ou compreender uma informação e (2) aceitar a realidade ou verdade dessa mesma informação (ex.: Rm 4:3), o que resulta em certeza, confiança (segurança interior);
    • Um conjunto de fatos e/ou doutrinas (ideias ou princípios) a serem acreditadas (ex.: Jd 1:3);
  • A Fé que salva envolve conhecer a Mensagem do Evangelho e crer nela especificamente;
  • Essa Fé é concedida ao homem por Deus;
  • Distorções na Mensagem do Evangelho são severamente condenadas na Bíblia (Gl 1:8);

1 Poderíamos dizer também segurança “psicológica”, no entanto preferi não utilizar essa palavra porque popularmente ela é associada à falsidade/irrealidade e a fé não é necessariamente colocada sobre inverdades. É tanto possível crer em algo verdadeiro quanto em mentiras ou falsidades.
2 Ouvi essa história de um pregador na internet, mas não consegui encontrar a fonte para confirmar a sua veracidade. De qualquer maneira, ainda que se trate apenas de uma ilustração, eu a compartilho aqui apenas para ajudar na compreensão do significado da palavra “fé”.
3 Isso é claro, inclui a relação dessa mensagem com a pessoa em questão, mas falaremos mais a respeito disso na segunda parte do livro.
4 Consulte o capítulo dezesseis.
5Anátema” é uma palavra que significa, aqui nesse contexto, “amaldiçoado”.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

1. O Evangelho que Salva

I Coríntios 15:1a Ora, eu vos lembro, irmãos, o evangelho que já vos anunciei...
O trecho inicia com o apóstolo Paulo trazendo à memória de seus leitores a mensagem do Evangelho, que ele já havia anunciado aos cristãos da igreja1 de Corinto. A palavra “Evangelho”, no idioma original (grego), euangélion, resulta da junção de duas palavras gregas: eu que quer dizer “bom” e angelia que significa “mensagem, notícia, ou novas”, ou seja, “Evangelho” quer dizer “boas novas” ou “boas notícias”.
No mundo antigo, após uma vitória numa batalha, era enviado um mensageiro denominado “evangelista” com as boas novas, ou, boas notícias da vitória para avisar uma autoridade. As boas novas aqui na passagem se referem, como veremos mais a frente em detalhes, à realidade de que a dívida do pecado do povo de Deus, foi paga por Jesus Cristo em sua morte na cruz, bem como o fato de Jesus ter ressuscitado e todas as implicações relacionadas a esses dois eventos.
I Coríntios 15:1b ...o qual também recebestes, e no qual perseverais,
O apóstolo afirma que os irmãos de Corinto foram receptivos à mensagem do Evangelho, recebendo, ou seja, crendo quando ela lhes foi anunciada, e não somente isso, eles perseveraram, isto é, continuaram crendo nela e vivendo de acordo com essa crença.
I Coríntios 15:2 pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão.
Aqui, no segundo versículo, nos é revelado que os leitores da carta eram “salvos” pelo Evangelho. (veremos o que isso significa nos próximos capítulos) Isso seria verdade, caso a mensagem do Evangelho estivesse sendo conservada, ou crida, da forma como foi anunciada por Paulo, sem modificações, ou adulteração. Paulo deixa claro que se esse não fosse o caso, aquelas pessoas não estariam salvas.
Atentando para o final do versículo lemos: “se não é que crestes em vão”. É possível entender, à luz do contexto mais a frente, que isso provavelmente se refere a uma fé errada, portanto vazia e equivocada, que não leva a nada:
I Coríntios 15:17a E, se Cristo não foi ressuscitado, é vã a vossa fé...
Em outras palavras, a fé cristã é fundamentada em fatos específicos que deveriam ser conhecidos (em sua pureza, sem adulterações) e assumidos como verdade por aqueles que a professam e somente assim, resultaria em salvação.
Precisamos agora compreender o significado da palavra “fé” (ou “crença”). No próximo capítulo veremos como a Bíblia define esse termo.
Resumo do Capítulo 1
  • (I Co 15:1) Paulo lembra os cristãos de Corinto sobre o Evangelho;
  • Evangelho”: “Boas Novas” ou “Boas Notícias”
    • Do grego: euangélion
      • Eu: “bom”
      • Angelia: “mensagem, notícia ou novas”
    • Mensagem levada por um mensageiro (evangelista) contando a vitória em uma batalha;
  • Os cristãos de Corinto receberam o Evangelho (acreditaram nele) e perseveraram nele (continuaram acreditando e vivendo de acordo com essa fé);
  • (I Co 15:2) As pessoas são salvas pelo Evangelho;
  • É necessário permanecer crendo na mensagem pura (sem modificações) do Evangelho; Uma fé equivocada ou adulterada é vã e não leva a lugar algum (I Co 15:17a);

1 O termo “igreja” (do grego: ekklesia) era de uso comum na antiguidade significando uma assembleia que convocava escolhidos dentre a massa do povo para debater assuntos ligados às políticas públicas. Na Bíblia, o seu uso refere-se aos seguidores de Jesus Cristo, os cristãos.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Introdução: I Coríntios 15:1-11

O texto base que iremos ler se encontra na Bíblia Sagrada, no Novo Testamento, em I Coríntios, no capítulo 15, versículos de 1 a 11:
Texto Base: I Coríntios 15:1-11 Ora, eu vos lembro, irmãos, o evangelho que já vos anunciei; o qual também recebestes, e no qual perseverais, (2) pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão.(3) Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; (4) que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; (5) que apareceu a Cefas, e depois aos doze; (6) depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; (7) depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos; (8) e por derradeiro de todos apareceu também a mim, como a um abortivo. (9) Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. (10) Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo. (11) Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes.
O trecho lido faz parte de uma carta que o apóstolo Paulo enviou aos cristãos1 que moravam numa cidade da antiga Grécia chamada Corinto. Na carta, após tratar de diversos assuntos e problemas enfrentados pela comunidade de cristãos daquele local, o apóstolo agora se preocupa em retomar a mensagem do Evangelho, a qual introduzirá a sua defesa da doutrina da ressurreição (mencionaremos essa doutrina posteriormente) que se encontra nos versículos a frente. Podemos considerar que essa defesa vai do versículo doze até o cinquenta e oito.
O objetivo de todo o capítulo 15 é, resumidamente, apresentar uma argumentação da realidade e importância da doutrina da ressurreição para a fé cristã. No entanto, o sumário da mensagem do Evangelho contido nesses primeiros onze versículos é muito interessante, porque, quando analisado com calma, possibilita a compreensão de algumas doutrinas fundamentais do cristianismo.
Vamos trabalhar o tema do Evangelho em três partes. Primeiramente faremos uma análise da mensagem e teologia2 envolvidas na passagem. Em seguida faremos uma reflexão sobre as implicações dessa mensagem para a vida de todos nós. Por fim, falaremos algo a respeito de compartilhar essa mensagem com outras pessoas.

1 “Cristãos” era o nome que se deu aos seguidores de Jesus Cristo quando o seu grupo começou a crescer consideravelmente (conferir Atos 11:26).
2 Teologia” é uma palavra resultante da junção de duas outras palavras gregas: theos (Deus, divindade) e logos (estudo, lógica, discurso). Teologia, no contexto do cristianismo evangélico, seria o estudo de Deus conforme Ele se revela na Bíblia, e, de uma forma mais abrangente, o estudo das demais doutrinas bíblicas.

Prefácio

Este livro é, em grande parte, fruto de uma série de estudos bíblicos ministrados na Escola Bíblica Dominical. Trata-se de uma introdução à fé cristã1, com foco na mensagem do Evangelho2, partindo da análise de um trecho da primeira epístola3 do apóstolo4 Paulo aos Coríntios (I Coríntios 15:1-11) e a partir daí desenvolvendo o raciocínio por meio de outros trechos bíblicos.
Considerando a abrangência do tema, recomendo ao interessado que busque maiores informações em bons livros ou artigos sobre os tópicos apresentados.5
O que me motivou a princípio a trabalhar esse tema foram as dúvidas pessoais que eu tinha a respeito da fé cristã e do evangelismo, bem como a percepção de que boa parte dos cristãos com que conversava também partilhava das mesmas indagações.
A mensagem do Evangelho contém algumas das doutrinas6 centrais do cristianismo, a base sobre a qual, muitas outras doutrinas são erigidas. A própria identidade cristã (daqueles que seguem e depositam a fé em Jesus Cristo) fica comprometida quando desvinculada dessa mensagem. Como podemos afirmar a realidade do cristianismo em nossas vidas se nem sequer entendemos a sua mensagem central?
A minha esperança é que esse livro possa ajudar você, a sua família e a sua comunidade a compreender um pouco mais a respeito da Palavra de Deus.
Que Deus te abençoe ricamente!
Israel Teixeira de Andrade, março de 2017.

1 Consulte o capítulo 2 para uma definição concisa de "fé".

2 Definição no capítulo 3.

3 A palavra “epístola” vem de uma palavra grega (epistole) cujo significado literal era “palavra” ou “mensagem”. É o termo bíblico para a correspondência, as “cartas” da antiguidade.

4 “Apóstolo” seria um termo no idioma original (grego), que se refere a alguém enviado ou comissionado para executar uma determinada tarefa. No caso específico dos apóstolos de Jesus no Novo Testamento, o sentido é mais restrito, referindo-se ao grupo de homens que, tendo testemunhado a ressurreição de Jesus Cristo, foram escolhidos e capacitados por Deus para ensinar e liderar o seu povo.


5 Há bastante material de qualidade e excelentes indicações de livros nesse website: www.monergismo.com
6 "Doutrina" seria um conjunto de princípios ou ideias que expressa um posicionamento religioso ou filosófico.