domingo, 18 de fevereiro de 2018

17. A Lei e o Evangelho

Mesmo após a exposição dos assuntos tratados até aqui, muitas pessoas, inclusive líderes espirituais do passado, confundiram dois conceitos fundamentais na interpretação da Bíblia, a Lei e o Evangelho. 1
A Lei, entendida de maneira mais ampla, seria tudo o que Deus requer de nossa obediência. Ela se expressa através das suas leis/preceitos, comandos diretos, exigências etc. Em outras palavras, quando Deus nos manda obedecer alguma instrução, seja moral ou prática, temos ali um exemplo perfeito de Lei2. Um exemplo:

Filipenses 2:3 Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.

Nós podemos reconhecer facilmente a Lei nas Escrituras pelo uso do imperativo na formulação das frases. Mais um exemplo:

Levítico 19:18 Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.
Já o Evangelho, tomado de forma mais ampla3, se refere a toda verdade da graça4 de Deus. Aquilo que Deus afirma como verdade, ou realidade estabelecida por Ele mesmo a favor do seu povo. Exemplo:

Gálatas 3:29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão5, e herdeiros conforme a promessa.

Note que nesse último versículo é comunicado que aquele que é de Cristo é, por consequência, um herdeiro conforme a promessa feita por Deus. A pessoa não é instruída aqui a “se fazer herdeiro” por grande esforço, ela é instruída aqui a reconhecer uma realidade já estabelecida.
O Evangelho pode ser facilmente reconhecido pelo uso do indicativo na formulação das frases. Mais um exemplo:

I João 5:13 Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus.

As vezes as pessoas confundem os dois conceitos, criando mandamentos de homens onde deveriam enxergar o amor gracioso de Deus6. Ou então desprezam os mandamentos de Deus, desculpando-se por uma visão distorcida da graça7. É importante não cometer nenhum destes dois erros pois, além de prejudicar a interpretação da Palavra de Deus, levam a uma prática pouco saudável de um “cristianismo”.
Lei é o que devemos fazer em obediência a Deus, Evangelho é o que Deus faz por nós. É por isso que, um grande estudioso das Escrituras, certa vez disse: “Evangelho são boas notíciais e não bons conselhos”. Não se trata de: “Faça! senão...”, mas sim de: “Veja o que Deus fez!”. E é inclusive interessante como isso nos ensina a obedecer a Deus. Não somos motivados à obediência dos seus mandamentos única e exclusivamente pelas consequências de não fazê-lo (embora devamos sim levá-las em conta), mas também por reconhecer o que Deus fez por nós em Cristo.
Tendo visto um grande panorama a respeito do Evangelho e das doutrinas relacionadas a ele, encerramos a primeira parte deste livro e a seguir nos ocuparemos de falar sobre como encarar e experimentar essas verdades.


Resumo do Capítulo 17
  • Muitos confundem o que é Lei e o que é Evangelho.
  • A Lei se refere aos mandamentos de Deus. Exemplo: Fp 2:3
  • É fácil reconhecer a Lei na Bíblia pelo uso do imperativo. Mais um exemplo: Lv 19:18
  • O Evangelho se refere à realidade da graça de Deus. Exemplo: Gl 3:29
  • É fácil reconhecer o Evangelho na Bíblia pelo uso do indicativo. Mais um exemplo: I Jo 5:13
  • É perigoso confundir a Lei e o Evangelho. Pode levar a pensamentos e práticas equivocadas do cristianismo.
  • Lei é o que devemos fazer para Deus, Evangelho é o que Ele faz por nós.

1 Uma das pessoas que promoveu essa distinção de maneira magistral foi o reformador Martinho Lutero. Trata-se do que os teólogos chamam de “chave hermenêutica”. Uma ferramenta de interpretação de passagens bíblicas informada pela Escritura e que nos ajuda a interpretá-la.
2 Note que o conceito é mais abrangente do que o código de leis explícito no Velho Testamento (presente em Levítico, Números e Deuteronomio, por exemplo), podendo incluir também os comandos de Jesus no Novo Testamento, ou as instruções dos apóstolos.
3 Note que não estamos agora restringindo literalmente o termo “Evangelho”, seja à história da redenção em Cristo Jesus, seja aos quatro Evangelhos do Novo Testamento, mas sim tomando o conceito de “graça” e contrastando-o com Lei, para assim não misturar as duas ideias acidentalmente e por consequência cometer erros terríveis de interpretação bíblica.
4 O favor imerecido, como já mencionamos no capítulo anterior.
5 Ou seja, os que são de Cristo herdam as bençãos do patriarca Abraão.
6 Esse erro é comumente chamado de “legalismo”.
7 Esse erro por sua vez é chamado de “antinomismo”.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

16. A Graça de Deus


Em outra carta escrita por Paulo, aos cristãos da cidade de Éfeso, lemos o seguinte:

Efésios 2:8-9 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

O que vemos nesses dois versículos é que a salvação é um presente de Deus1. A fé é o meio, ou o instrumento pelo qual Deus salva as pessoas e ela sequer é produzida por nós mesmos, mas ela nos é dada por Deus. Ou seja, para receber a salvação, alguém deve depositar a sua fé na vida, obra e ressurreição de Jesus e isso tudo, é um presente concedido por Deus (inclusive a própria fé).
Ainda no mesmo versículo, vemos também que as chamadas “boas obras” (“caridades”, conduta moral etc.), que a crença popular associa com a salvação eterna, são descartadas nesse contexto da salvação e que somente a fé no Evangelho é necessária.2
A Bíblia deixa claro que somente Cristo pode salvar e que não se deve acrescentar nada a isso, sejam boas obras, seja frequência em uma instituição religiosa ou qualquer coisa semelhante. De fato, em outra epístola somos advertidos contra o perigo de fazê-lo:

Gálatas 5:4 Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.

A situação nesse versículo era a de que alguns judeus convertidos ao cristianismo começaram a anunciar que os cristãos deveriam guardar a lei de Moisés3 (no Velho Testamento) para se salvar. Isso iria totalmente contra a pregação de Paulo, que dizia que a salvação não poderia ser comprada com boa conduta, ou seguindo rigorosamente um código de leis. Mesmo porque, a Bíblia testemunha que, (1) ninguém, a não ser Jesus, obedeceu a lei perfeitamente e, (2) se pecamos em um ponto da lei de Deus, somos culpados de ter desobedecido a todas as suas leis:

Tiago 2:10 Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, tem-se tornado culpado de todos.

No nosso caso, a lei de Deus, da qual trataremos mais a frente, é, dentre outras coisas, (1) um instrumento usado pelo Espírito Santo para convencer o pecador do seu estado de rebelião contra Deus, bem como (2) um guia de conduta para o cristão que já foi alcançado pela graça de Deus. Mas os 10 mandamentos não são, de forma alguma, uma maneira de comprar a salvação por meio da obediência.
Resumindo, a fé salvadora é um presente gratuito de Deus, e quando alguém a recebe, deixa de confiar em suas boas obras, ou caráter, ou qualquer outra coisa para se salvar. Essa pessoa passa a confiar total e exclusivamente na expiação dos seus pecados feita por Jesus, em sua perfeita justiça transferida a si por Deus e na comunhão com Deus através da pessoa do Espírito Santo.
Resta ainda fazer um alerta importante sobre a interpretação das Escrituras. Um erro muito comum na leitura bíblica levou muitas pessoas, ao longo dos séculos, a confundir dois conceitos distintos, a Lei e o Evangelho. E é sobre isso que falaremos no capítulo seguinte.


Resumo do Capítulo 16
  • A salvação é um presente (“graça”: favor imerecido) da parte de Deus e a fé é o meio concedido por Ele para isso se tornar uma realidade na vida de alguém (Ef 2:8-9)
  • As boas obras que o cristão deve praticar não tem relação alguma com a sua justificação.
  • É temeroso usar das “obras da lei” para se justificar perante Deus (Gl 5:4)
      • Tropeçar num ponto da lei é tropeçar em todos (Tg 2:10)
  • A Lei é, dentre outras coisas:
      • Um instrumento usado pelo Espírito Santo para convencer o pecador do seu estado de rebelião contra Deus
      • Um guia de conduta para o cristão já alcançado pela graça de Deus
  • A pessoa que foi salva confia total e exclusivamente nos seguintes pontos:
      • A expiação de seus pecados efetuada por Jesus
      • A transferência da justiça de Cristo para si, feita pelo próprio Deus
      • A comunhão com Deus através do Espírito Santo

1 “Graça” significa favor imerecido, benevolência.
2 As boas obras têm um papel de extrema importância na vida do cristão. De fato, é esperado que ele as pratique segundo a orientação do Espírito Santo e de sua Palavra (conforme exposto no tópico VI do capítulo 14), mas elas definitivamente não tem relação alguma com a justificação de alguém diante de Deus. Apenas a obra de Cristo na cruz pode salvar, e a fé nessa obra é o único meio estabelecido por Deus para que alguém seja salvo.
3 Grande líder e libertador do povo de Israel no Velho Testamento. O relato de sua trajetória se encontra nos livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Através dele, Deus conferiu um corpo de leis para reger a conduta moral, religiosa e civil do povo de Israel.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

15. O Novo Nascimento


No capítulo 12 comentamos a respeito da “morte espiritual” do homem, de como ele é escravo do pecado e incapaz de se voltar em obediência para Deus. Jesus porém, em certa ocasião, confortou os seus discípulos com a promessa da vinda do Espírito Santo:

João 16:7-11 Todavia, digo-vos a verdade, convém-vos que eu vá; pois se eu não for, o Ajudador não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei. 8 E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: 9 do pecado, porque não crêem em mim; 10 da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais, 11 e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.

Em outras palavras, Deus faria pelos pecadores, na pessoa do Espírito Santo, o que eles não poderiam fazer por si mesmos, a saber, transformar os seus corações levando-os à fé e ao arrependimento. Tudo o que é necessário à transformação do homem, é operado pelo poder soberano do próprio Deus.
Isso já havia sido prometido há muito tempo, através das revelações concedidas a um profeta chamado Ezequiel, no Velho Testamento:

Ezequiel 36:26,27 Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. 27 Ainda porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis.

Se o leitor crê ou vier um dia a crer no Evangelho para sua salvação, isso só é/será uma realidade por conta de uma transformação anterior no coração, feita pelo Espírito Santo. Transformação essa que o Senhor Jesus chamou de o “novo nascimento”:

João 3:3,5-6,8 Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. 5 Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. 6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. 8 O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

Note que o Senhor Jesus usa aqui a figura do vento, enfatizando a sua liberdade de “soprar onde quer” e associa isso com aquele que é “nascido do Espírito”. Ou seja, o Senhor Deus, em sua liberdade e soberania, leva uma pessoa a “nascer de novo”, transformando-a no mais profundo do seu ser, trazendo vida espiritual (da qual estávamos afastados por conta do pecado) e finalmente à fé no Evangelho.
Recomendo que o leitor medite demoradamente sobre o capítulo 3 do Evangelho de João. Também é interessante conferir uma boa exposição a respeito do mesmo1.
O apóstolo Paulo em outros escritos trata da mesma verdade, fazendo uso do termo “regeneração”:

Tito 3:5-6 Não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação pelo Espírito Santo, 6 que ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador;

Antes que alguém possa sequer crer no Evangelho, é necessário que haja uma transformação no seu interior. Essa pessoa precisa ser “regenerada”, “nascer de novo”. A Bíblia ainda faz algumas considerações importantes a respeito do porquê Deus realizou isso, que é o tema do próximo capítulo.

Resumo do Capítulo 15
  • A vinda do Espírito Santo foi prometida por Jesus (Jo 16:7-11)
      • O Espírito Santo transformaria o coração dos homens, levando-os à fé e ao arrependimento
      • Como fora prometido previamente, segundo a profecia de Ezequiel no VT (Ez 36:26-27)
  • Só pode crer quem “nascer de novo” (Jo 3:3-5,6,8)
      • Transformação no coração feita por Deus
      • Deus transforma quem ele quiser
  • Paulo usa o termo “regeneração” para se referir ao mesmo processo de transformação (Tt 3:5)

1 O artigo “Nascido de Novo” de Vincent Cheung é excelente e é distribuído gratuitamente na internet: