sábado, 23 de junho de 2018

25. Evidências da Salvação


A Bíblia, como já vimos nos capítulos anteriores, nos ensina que não devemos confiar em nada além do amor de Deus, manifesto na obra de Jesus Cristo na cruz para assegurar a nossa salvação. No entanto, ela também nos diz que a salvação produz frutos ou resultados na vida da pessoa e que devemos examinar tais frutos não como causa da salvação, mas como consequência, evidência do agir de Deus em nossas vidas. Devemos sim encontrar, ao longo do tempo, mudanças em nós, na nossa forma de agir, de pensar, de falar etc.

2 Coríntios 13:5 Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.
Tiago 2:17-18 Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

Se depositamos nossa fé em Jesus para a nossa salvação, somos, segundo a promessa de Deus, feitos habitação do Espírito Santo e isso tem consequências em nossas vidas:

Gálatas 5:22-25 Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei. Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito. (NVI)

Vale notar também a exortação ao final do versículo 25: “...andemos também pelo Espírito”. Ou seja, mesmo não havendo participação humana no novo nascimento,1 mesmo que as nossas boas obras tenham origem no próprio Deus, devemos nos esforçar em nossa santificação, em outras palavras “operar”, ou “pôr em ação” a nossa salvação:

Filipenses 2:12,13 Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.

O final destes versículos nos ajuda a permanecer humildes diante de Deus. Foi o Senhor quem operou tanto no nosso querer (a nossa vontade de obedecer) quanto no nosso realizar (as nossas ações concretas), de forma que toda a glória e honra pertencem a Deus. Enquanto que o começo destes dois versículos nos lembra que agir (aqui soarei redundante) é algo que fazemos nós mesmos, o final dos versículos nos mostra que esse agir não resulta de uma força que nasce de nós mesmos, não resulta dos nossos próprios méritos, é uma obra de Deus.2
O Espírito Santo nos levará a viver de forma totalmente diferente de antes da nossa conversão3. Até o ponto que poderemos constatar sermos pessoas novas:

2 Coríntios 5:17 Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.

Pode ser que algumas coisas em nossas vidas levem algum tempo até que se conformem ao que Deus estabelece em sua Palavra, de fato, a santificação,4 como mencionamos, é progressiva nessa vida e tem um alvo muito bem definido, sermos semelhantes a Deus em caráter:

I João 3:2 Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos.
Toda essa transformação nos leva à obediência a Deus, a assumirmos o seu senhorio5 sobre as nossas vidas, que se evidencia na mesma medida em que obedecemos à Palavra de Deus:

Lucas 6:46 E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?

No próximo capítulo faremos uma revisão do que temos visto até aqui e esclareceremos alguns termos.

Resumo do Capítulo 25
  • A salvação produz frutos como evidência (não causa) da sua realidade. Devemos examinar esses frutos
    (2 Co 13:5; Tg 2:17-18)
  • A habitação do Espírito Santo em nós, quando cremos em Jesus, tem consequências positivas (Gl 5:22-25)
  • Devemos nos esforçar em nossa santificação, ainda que Deus exerça seu controle soberano sobre todo o processo
    (Fp 2:12-13)
  • Seremos pessoas completamente diferentes (2 Co 5:17)
  • A santificação é progressiva, tendo como alvo a semelhança com Deus em caráter (I Jo 3:2)

1 Ou “regeneração”, consulte o capítulo 15 a respeito do “novo nascimento”.
2 O leitor não habituado à soteriologia (doutrina da salvação) reformada/evangélica pode estranhar o fato de que somos regenerados pelo agir unilateral de Deus (o termo técnico em teologia é “regeneração monergística”), enquanto que depois somos chamados a agir e trabalhar em nossa santificação, sendo que novamente é Deus quem operar em nossa vontade e ações. Para um texto elaborado nesse tópico, recomendamos o capítulo de número 6 da “Teologia Sistemática” (à venda pela editora monergismo e de graça na internet com autorização do autor) de Vincent Cheung, no tópico “Santificados”. O trecho relevante se encontra no seguinte link:
http://www.monergismo.com/textos/santificacao/cheung_santificado.htm

3 Sobre a conversão, consulte o capítulo 22.
4 Consulte o capítulo 14 (“Salvos para o quê?) no 6º tópico: “A Santificação”.
5 É por isso que a Bíblia chama a Deus de “o Senhor” e nós, de seus “servos”.

domingo, 3 de junho de 2018

24. A Certeza da Salvação

Todos as pessoas têm fé1 e apostam suas vidas nela. Ao pegar um avião, a pessoa, por mais cética que seja, deve ter alguma justificativa muito boa para acreditar que ele sairá do chão, quanto mais chegar em segurança ao destino final! Isso não quer dizer que não haja momentos em que uma turbulência de vez em quando não abale um pouco essa confiança. Afinal, mesmo que o avião comece a tremer as pessoas costumam ainda pensar: “Os cientistas passaram muito tempo estudando para que esse negócio fosse seguro…” ou então: “Os pilotos fazem isso há muitos anos e sabem como lidar com essa situação” e etc. O fato é que a fé e a dúvida são realidades experimentadas constantemente por todas as pessoas.
Note que a fé, como temos enfatizado aqui, sempre se sustenta em alguma outra coisa, um fato, uma situação, uma informação etc.2 Mas em que sustentaríamos a certeza/fé relacionada à nossa salvação eterna? Em que fundamento descansaríamos seguros?
Nós já conferimos que as boas obras/caridade são um péssimo candidato para garantir essa certeza. Afinal os critérios de Deus são perfeitos e nós estamos longe demais disso. Sabemos também que frequentar uma instituição religiosa e praticar vários dos seus ritos também não nos ajudariam muito, visto que nada disso foi considerado suficiente por Deus para expiar os nossos pecados.3 Afinal o próprio Deus estabeleceu a vinda de Jesus para a expiação dos pecados do seu povo e exigiu desse mesmo povo a fé no sacrifício de seu filho. Mas então chegamos a uma “brilhante” conclusão: Só resta nos apoiar em nossa fé no Evangelho! Considerando que foi esse o meio que Deus estabeleceu para efetuar a salvação. Infelizmente esse também é um erro muito comum, como demonstraremos.
A primeira coisa que devemos ter em mente é que a fé no Evangelho é o MEIO e não a CAUSA da nossa salvação. O que nos justifica diante de Deus é a obra e os méritos de Cristo. E a experiência nos mostra, se a nossa caminhada cristã durou mais do que cinco minutos, que em alguns momentos a nossa fé é abalada, seja por alguma ideia que estamos considerando, seja por uma situação específica que estamos enfrentando etc. Se até mesmo essa fé, em nossos corações, vacila, com certeza isso não é um fundamento assim tão sólido para depositar a nossa confiança. Não devemos ter fé na fé.4
A resposta para o nosso questionamento reside em lembrar dos atributos e do caráter de Deus. Nossa fé deve se apoiar no amor de Deus. O próprio Deus, na pessoa de Jesus Cristo, veio ao mundo resgatar e salvar o seu povo da destruição. Foi iniciativa dele, foi Ele quem veio morar no seu povo, na pessoa do Espírito Santo. Ou seja, a salvação é do interesse máximo de Deus e é assegurada pelo próprio Deus:

João 3:17 Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo5 por ele.
João 6:37-40 Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.

Vemos então que a nossa fé não deve descansar em outro lugar senão na verdade expressa da Palavra de Deus. A saber, o amor de Deus e a sua iniciativa de nos salvar através do seu Filho Jesus. Sendo Deus perfeito em caráter e todo-poderoso, estamos seguros em que Ele é poderoso para nos salvar e nos preservar até o final. Mas a Bíblia nos exorta a atentar também para algumas evidências dessa salvação em nossas vidas. É o que veremos no próximo capítulo.
Resumo do Capítulo 24
  • Todos as pessoas experimentam a fé e a desconfiança constantemente
  • Fundamentos inadequados para a certeza da nossa salvação:
      • Boas obras
      • Ritos religiosos
      • A nossa própria fé (a fé é o meio da graça de Deus e não a sua causa)
  • Nossa fé deve se apoiar no amor e no caráter de Deus conforme revelado na Palavra de Deus (Jo 3:17; Jo 6:37-40)
  • A salvação é iniciativa de Deus e portanto é por ele assegurada

1 A definição que utilizamos aqui é a de crença pessoal, o assentimento convicto à verdade de alguma informação, conforme explicado no capítulo 2.
2 Preciso deixar isso claro por conta da contemporânea militância neoateísta, que usa da estratégia de atacar o espantalho de uma “fé” sem embasamento algum, que pode até ser a realidade em alguma religião qualquer, mas com certeza, isso não tem lugar no cristianismo histórico.
3 Explicações nos capítulos 3 e 9.
4 Colocar nossa confiança em nossa capacidade de crer, sendo que o ato de crer é muitas vezes inconstante na vida do homem, seria entender a salvação como um jogo de “bem-me-quer, mal-me-quer”.
5 Note nesse e em outros versículos a certeza de Deus em concretizar o seu plano de salvação.