Mesmo
após a exposição dos assuntos tratados até aqui, muitas pessoas,
inclusive líderes espirituais do passado, confundiram dois conceitos
fundamentais na interpretação da Bíblia, a Lei e o Evangelho. 1
A
Lei, entendida de maneira mais ampla, seria tudo o que Deus requer de
nossa obediência. Ela se expressa através das suas leis/preceitos,
comandos diretos, exigências etc. Em outras palavras, quando Deus
nos manda obedecer alguma instrução, seja moral ou prática, temos
ali um exemplo perfeito de Lei2.
Um exemplo:
Filipenses
2:3
Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade;
cada um considere os outros superiores a si mesmo.
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Nós podemos reconhecer facilmente a Lei nas Escrituras pelo uso do imperativo na formulação das frases. Mais um exemplo:
Levítico
19:18 Não
te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas
amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.
|
Já
o Evangelho, tomado de forma mais ampla3,
se refere a toda verdade da graça4
de Deus. Aquilo que Deus
afirma como verdade, ou realidade
estabelecida por
Ele
mesmo a
favor do seu povo. Exemplo:
Gálatas
3:29 E,
se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão5,
e herdeiros conforme a promessa.
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Note que nesse último versículo é comunicado que aquele que é de Cristo é, por consequência, um herdeiro conforme a promessa feita por Deus. A pessoa não é instruída aqui a “se fazer herdeiro” por grande esforço, ela é instruída aqui a reconhecer uma realidade já estabelecida.
O
Evangelho pode ser facilmente reconhecido pelo uso do indicativo
na formulação das frases.
Mais um exemplo:
I
João 5:13 Estas
coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de
Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que
creiais no nome do Filho de Deus.
|
As vezes as pessoas confundem os dois conceitos, criando mandamentos de homens onde deveriam enxergar o amor gracioso de Deus6. Ou então desprezam os mandamentos de Deus, desculpando-se por uma visão distorcida da graça7. É importante não cometer nenhum destes dois erros pois, além de prejudicar a interpretação da Palavra de Deus, levam a uma prática pouco saudável de um “cristianismo”.
Lei é o que devemos fazer em
obediência a Deus, Evangelho é o que Deus faz por nós. É por isso
que, um grande estudioso das Escrituras, certa vez disse: “Evangelho
são boas notíciais e não bons conselhos”. Não se trata de:
“Faça! senão...”, mas sim de: “Veja o que Deus fez!”. E é
inclusive interessante como isso nos ensina a obedecer a Deus. Não
somos motivados à obediência dos seus mandamentos única e
exclusivamente pelas consequências de não fazê-lo (embora devamos
sim levá-las em conta), mas também por reconhecer o que Deus fez
por nós em Cristo.
Tendo visto um grande panorama
a respeito do Evangelho e das doutrinas relacionadas a ele,
encerramos a primeira parte deste livro e a seguir nos ocuparemos de
falar sobre como encarar e experimentar essas verdades.
Resumo do Capítulo 17
|
1
Uma das pessoas que promoveu essa distinção de maneira magistral
foi o reformador Martinho Lutero. Trata-se do que os teólogos
chamam de “chave hermenêutica”. Uma ferramenta de interpretação
de passagens bíblicas informada pela Escritura e que nos ajuda a
interpretá-la.
2
Note que o conceito é mais abrangente do que o código de leis
explícito no Velho Testamento (presente em Levítico, Números e
Deuteronomio, por exemplo), podendo incluir também os comandos de
Jesus no Novo Testamento, ou as instruções dos apóstolos.
3
Note que não estamos agora restringindo literalmente o termo
“Evangelho”, seja à história da redenção em Cristo Jesus,
seja aos quatro Evangelhos do Novo Testamento, mas sim tomando o
conceito de “graça” e contrastando-o com Lei, para assim não
misturar as duas ideias acidentalmente e por consequência cometer
erros terríveis de interpretação bíblica.
4
O favor imerecido, como já mencionamos no capítulo anterior.
5
Ou seja, os que são de Cristo herdam as bençãos do patriarca
Abraão.
6
Esse erro é comumente chamado de “legalismo”.
7
Esse erro por sua vez é chamado de “antinomismo”.
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